sábado, 13 de dezembro de 2008

Ele não desistiu de voar

Não vou colocar título aqui, porque não sei nem sobre o que vou escrever. Todos os dias uma vontade louca de escrever me invade, toma conta de mim e não consigo escrever, e me assombram pensamentos de que não sei mais escrever, de que nunca soube.
Aí lembro da minha professora da primeira série do ensino fundamental encantada com meus textos. Aí tento me convencer de que sou boa nisso. De que não sei apenas fazer textos técnicos, textos para ganhar dinheiro.
De que sempre acreditei nisso, mas de repente tudo em que sempre acreditei me faz sentir estranha, me faz sentir em outro plano , me faz desejar ser outra pessoa, e sempre gostei tanto de ser eu.
Gostei sempre do desafio, porque uma vez a Valentina me fez refletir sobre um sentimento latente dentro de mim, ela disse assim para uma amiga minha, que hoje nem é mais amiga. "Tu pensa que é fácil ser filha da Fernanda? Não é Não!" Ela devia ter uns 6,7 anos quando disse isso a tal amiga e foi um choque para mim. Isso me fez avaliar e chegar a duas constatações que eu já tinha chego "não sou uma boa mãe!" e "não é fácil ser eu, não é fácil fazer sua vida baseada única e exclusivamente nos desejos do seu coração".
Sou muito egoísta para ser mãe, mas não sou egoísta no sentido de ser "apegada", pelo contrário, a cada dia estou mais desapegada das coisas, sei perder com tranquilidade, sei deixar para trás aquilo que me faz mal, ou aquilo que me faz bem, porque nem sempre minhas escolhas são baseadas "no que me faz bem", no que é politicamente correto. Sei abandonar. Sei sangrar.
E é justamente nesse sentido que não estou me reconhecendo. Dizem que o dever maior dos pais é ensinar a "criar raízes e voar" , mas me ensinaram apenas a criar raízes e tive que aprender o difícil ofício de voar sozinha.
Isso me lembra um outro epísódio. Um passarinho, filhote de Quero-Quero caiu de uma das árvores do pomar aqui de casa num desses temporais e ele estava aprendendo a voar. Com a queda ele ficou perdido, e ao mesmo tempo em que tentávamos recolocar ele e o ninho na árvore, ele se atirava de novo, numa sequência terrível que durou horas e dias. Mudamos o ninho de árvore, os pais dele andavam cercando a gente e só observavam. Numa das noites, o passarinho dormiu aqui dentro de casa, dentro de uma caixa de papelão semi-aberta e meus pais emprestaram o quarto deles para que os pais dele pudessem visitá-lo, pela janela, com tranquilidade e não abandonar o filhote.
Coisa de gente especial.
No dia seguinte, colocamos ele novamente na árvore. Mas, quando fomos vê-lo a tarde, ele havia morrido. Não sei se os pais o mataram, nunca ficamos sabendo o que aconteceu.
Mas, o que ficou na minha recordação é que em nenhum momento ele desistiu de aprender a voar, mesmo machucado, mesmo carente de seus pais, mesmo fora do lugar de onde deveria estar, ele continuava na tentativa de alcançar um vôo mais alto.
E eu sou assim, o tempo todo.
Não deve ser muito fácil ser minha filha, nem minha mãe, nem meu namorado, nem meu amigo.
A Valentina tem razão, como sempre.
Peço somente a sabedoria de saber a direção e a força de saber levantar toda vez em que cair da árvore.

Um comentário:

Giordano Bruno disse...

Oi Fê!
Teus textos têm alma, e estou gostando muito do que estou lendo. Quando você escrever um livro, me avisa tá?